França Junior

Opinião - 16/12/2019

EUA X CHINA, BREXIT E SOBRE-TAXAÇÃO NA ARGENTINA. E AGORA?

Olá amigos. A última semana foi marcada por importantes notícias para o nosso setor, que devem trazer impactos diretos sobre a formação dos preços da soja e do milho, seja no mercado internacional, seja no mercado interno: fechamento de acordo comercial fase 1 entre EUA e China; ampla vitória do primeiro ministro conservador Boris Johnson nas eleições parlamentares do Reino Unido, que deve abrir caminho para finalmente viabilizar o BREXIT; e aumento nos impostos de exportação na Argentina, as chamadas retenciones. Para entender melhor o momento e suas mudança, elaboramos este texto que tem o objetivo de trazer um resumo dessas novidades e seus principais impactos para o mercado.

EUA x CHINA

Desde maio de 2018, o mundo assiste com enorme ansiedade e apreensão a evolução do conflito comercial entre EUA e China, e que já vem trazendo impacto ao crescimento econômico global e contribuindo para o movimento de desaceleração já iniciado no ano passado. E, apesar de uma solução final e efetiva para o conflito parecer distante, a última semana foi promissora, pois depois de muitas idas e vindas nesses últimos 19 meses, foi fechado o que ambas as partes passaram a chamar de fase 1 do acordo comercial.

O Combinado

Por enquanto, o que foi combinado foi: a China se compromete a comprar US$ 32 bilhões adicionais em produtos agrícolas dos EUA nos próximos 2 anos (US$ 16 bls a mais por ano). Assim o total de compras previstos para 2020 será bem maior do que os US$ 24 bls em importações chinesas do agronegócio dos EUA de 2017 (ano de pico de compras que antecedeu ao início da guerra comercial); já os EUA suspenderam a tarifação extra em US$ 160 bilhões de importações chinesas prevista para entrar em vigor no último dia 15 de dezembro. E reduziu de 15% para 7,5% a tarifação em US$ 120 bls que estavam em vigor desde 1º de setembro. A extinção total dessa tarifa sobre os US$ 120 bls, bem como a redução ou eliminação na tarifa de 25% em outros US$ 250 bls que foram estabelecidos no início do ano, está condicionada ao avanço nas conversas que já começaram sobre uma fase 2 do acordo.  

A idéia é atacar diretamente o grande motivo para que o impasse entre os dois países tenha se formado, ou seja, o levado déficit comercial de US$ 200 bilhões existente entre os dois países. Isso porque antes do início do conflito a China tinha vendas anuais para os EUA na ordem de US$ 500 bilhões e os EUA vendiam aos Chineses apenas US$ 300 bilhões.

Os Impactos

Confirme vínhamos adiantando, o efeito prático sobre o mercado internacional desse acordo veio na forma de valorização das cotações da soja na Bolsa de Chicago. Se compararmos o fundo do poço ocorrido no dia 2 de dezembro, após 8 sessões de queda, a alta para o pregão desta segunda, dia 16 de dezembro, está em US$ 48.50 cents, ou 5,9%. E isso sem que a China tenha entrado efetivamente no mercado para novas compras. Quando isso acontecer, certamente teremos altas adicionais, devendo buscar rapidamente a casa dos US$ 1000.00 cents/bushel (ou US$ 10.00/bushel).

Por outro lado, também confirmando nossa expectativa, houve queda na ordem de US$ 8 a US$ 14 cents nos prêmios de exportação dos portos brasileiros, anulando uma parte da alta externa. Essa tendência de prêmios mais acomodados no Brasil daqui para frente está relacionada à provável diminuição das compras pelos chineses de produto brasileiro. Mas como os valores dos prêmios já tinham caído muito nas últimas semanas pela expectativa de acordo, a tendência é que a alta na CBOT seja bem maior do que novos recuos que possam acontecer nos prêmios do Brasil. Além disso, sempre é bom lembrar que a safra nova dos EUA é pequena e não é suficiente para cobrir a necessidade das compras chinesas.    

E por último tivemos a melhora do humor no mercado financeiro global, com aumento geral da exposição ao risco por parte dos investidores. Desse movimento tivemos como saldo nesta segunda a alta de 2,6% no índice Dow Jones da Bolsa de Nova York, alta de 8,7% nos preços do petróleo WTI e recuo de 1,4% no dólar index (dólar x cesta de moedas), também na Bolsa de Nova York. Com isso o dólar Ptax acumula queda no mesmo período de 4,2%.    

Daqui para frente então temos duas grandes questões a serem resolvidas: a primeira é quando, e em que quantidade, os chineses entrarão com mais força no mercado norte-americano no curto prazo. Lembrando que a China já comprou 9.847 mil t de soja dos EUA neste ano comercial, contra apenas 455 mil em igual momento do ano anterior; e a segunda é como se encaminharão as conversas para que um acordo fase 2 ou final possa ser definitivamente fechado. Embora o mercado ainda esteja conservador em sua reação, não dá para negar que o ambiente geral melhorou muito. E que, mesmo mais parcialmente, o processo também será favorável para o mercado brasileiro.

BREXIT

A melhora do humor no mercado financeiro global nesses últimos dias também reflete os ganhos de expectativas para a viabilização de uma saída do Reino Unido da União Européia (BREXIT) de forma organizada. Esse fato colocaria fim a penosos 3,5 anos de negociações desde a vitória da saída no referendo sobre a permanência dos britânicos na EU, em junho de 2016. Junto com a guerra comercial EUA x China, esta é a segunda questão central de desestímulo à economia global na atualidade.

E essa melhora está ligada à ampla vitória do Partido Conservador do primeiro ministro Boris Johnson nas eleições parlamentares desta última semana. Com a maioria garantida, o primeiro ministro tem agora reais condições de aprovar o acordo que ele está costurando para viabilizar essa saída de forma menos traumática possível. E em paralelo a esse movimento já iniciou negociações para tentar um novo acordo comercial com a UE e um novo e ambicioso acordo com os EUA.

Os Impactos

Mas porque um BREXIT organizado é importante? Basicamente para que o trauma econômico da saída dos britânicos do bloco seja diminuído. Dessa forma poderíamos observar de forma processual a reversão da queda no PIB no Reino Unido e em toda a região. E, por consequência, contribuiu para a reversão do processo de desaceleração da economia mundial.

Para efeito do mercado brasileiro, a notícia traz consigo os seguintes impactos: ajudar a enfraquecer o valor do dólar no mercado internacional, em função da maior exposição ao risco por parte dos investidores. O que seria negativo aos preços no Brasil; por outro lado traria melhora para o ambiente econômico global, o que tende a favorecer o avanço da demanda; além da própria tendência de melhora na CBOT em função da menor aversão ao risco por parte do mercado financeiro. Essas duas últimas variáveis sendo favoráveis ao mercado brasileiro.   

NOVAS RENCIONES NA ARGENTINA

A terceira importante informação desta última semana já era esperada pelos produtores argentinos e pelo mercado em geral após a eleição de Alberto Fernandez para a presidência da Argentina: o aumento dos impostos de exportação, notadamente dos produtos agrícolas. Em caminho oposto ao do seu antecessor, a escolha para tentar sair da crise em que o país está mergulhado (por conta de profundos erros de gestão dos governos anteriores do mesmo espectro político do atual) foi pelo caminho mais fácil: o aumento de impostos e a intervenção direta do governo na economia, como controle de variação cambial, congelamento de salários de servidores públicos e elevação das taxações para demissões na iniciativa privada.

As Medidas

No aspecto que nos interessa, o que o novo governo argentino decidiu foi a elevação forte e geral dos impostos de exportação sobre o setor, as chamadas retenciones: no complexo soja (soja, farelo e óleo) tivemos a elevação das tarifas de exportação de aproximadamente 24,5% (taxa fixa de 18% + 4 pesos para cada dólar exportado) para 30% nesse primeiro momento. No milho e no trigo as retenciones passam de mais ou menos 6,5% (4 pesos para cada dólar exportado) para 12%. Ambos válidos já a partir do sábado, dia 14.

Mas a fome do governo não para por aí. O executivo está enviando ao Congresso proposta de lei para novo aumento, que tende a ser aprovado nos próximos dias, já que tem maioria nas duas casas, passando as retenciones a 33% no complexo soja e 15% para milho e trigo.

Os Impactos

O aumento nos impostos de exportação na Argentina está sendo também fator de alta para as cotações na CBOT para os três produtos, uma vez que o produtor argentino perde poder de competitividade frente aos seus pares norte-americanos ou brasileiros. Além disso, atua como fator de desestímulo para o cultivo na Argentina. Talvez não tão decisivo na nova safra de verão, que já está com a decisão de plantio definida e/ou efetivada. Mas principalmente na próxima safra. E como o diferencial entre os produtos foi mantido, segue a vantagem comparativa do milho e do trigo em relação à soja.  

 

Um agroabraço a todos!

Flávio Roberto de França Junior

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